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    A política do café no Brasil: do neoliberalismo de Bolsonaro ao foco de Lula nos pequenos produtores

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    Brazil’s coffee politics: from Bolsonaro’s neoliberalism to Lula’s smallholder focus

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      O lugar do Brasil no mercado global do café é frequentemente tratado como apolítico. Grandes produtores a fazerem o que grandes produtores fazem, trabalhando com escala e eficiência em mente. Essa perspetiva, no entanto, é totalmente enganadora. A economia do café no Brasil nunca foi neutra. Sempre foi moldada pela política, pela posse da terra e pelos interesses que o Estado escolhe defender quando os mercados e os climas se tornam hostis.

      Na última década, isso tornou-se cada vez mais explícito.

      Quando Jair Bolsonaro, um defensor neoliberal de direita, chegou ao poder em 2018, foi após anos de exaustão política: protestos em massa, recessão, colapso institucional e um escândalo de corrupção que prejudicou a esquerda brasileira. Lula, que tinha deixado o cargo com índices de aprovação acima de 80%, foi preso por acusações depois anuladas pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil, abrindo caminho para a ascensão de Bolsonaro (BBC). Bolsonaro capitalizou esse momento, reunindo uma coligação que atravessava interesses empresariais, evangélicos conservadores, setores da polícia e das forças armadas, e eleitores simplesmente desesperados por mudança (BBC). O seu projeto passou pela restauração do poder político das elites do agronegócio e pelo retrocesso dos ganhos redistributivos e regulatórios das duas décadas anteriores.

      Geopoliticamente, Bolsonaro alinhou-se estreitamente com Donald Trump. Ambos partilhavam uma visão de mundo hostil à regulamentação ambiental, desdenhosa das normas democráticas e confortável com a desigualdade como subproduto do crescimento. Bolsonaro apoiou publicamente as alegações de fraude eleitoral de Trump em 2020 e atrasou o reconhecimento da vitória de Biden. Trump, em troca, apoiou abertamente a candidatura à reeleição de Bolsonaro, chamando-o de aliado próximo (A Pública). Sob Bolsonaro, o Brasil posicionou-se firmemente dentro de uma ordem política alinhada com os EUA e focada na extração.

      Esse alinhamento teve consequências reais para a terra e a agricultura. A presidência de Bolsonaro coincidiu com o esvaziamento das agências ambientais e um forte aumento do desmatamento, que atingiu o nível mais alto em quinze anos (BCIU). Os interesses do agronegócio foram encorajados. A fiscalização enfraqueceu. A concentração de terras e a expansão da fronteira aceleraram. Isto não foi um desvio político incidental. Foi o resultado previsível de um governo estruturalmente alinhado com grandes proprietários rurais e a agricultura de exportação.

      No café, isso traduziu-se num sistema inclinado para a escala em vez da resiliência. Grandes propriedades, desenhadas para rendimento e volume, beneficiaram de regulamentação permissiva e menor responsabilização. Os pequenos produtores, que produzem uma parte significativa do café do Brasil e enfrentam a maior exposição à volatilidade climática, ficaram muito mais vulneráveis. Análises da indústria na altura notaram que Bolsonaro favorecia consistentemente operações em grande escala, mesmo quando as alterações climáticas começaram a degradar a própria base de terra da qual esses sistemas dependem (Coffee Intelligence).

      Mesmo o governo de Bolsonaro não pôde ignorar totalmente os limites deste modelo. Quando os preços do café caíram para o nível mais baixo em treze anos, explorou a intervenção direta no mercado através de mecanismos de apoio ao preço que permitiriam aos produtores vender café ao Estado a um preço mínimo fixo (Reuters). A proposta estava em desacordo com o compromisso declarado de Bolsonaro com a austeridade, mas revelou uma verdade desconfortável. O fundamentalismo de mercado era tolerado apenas enquanto não ameaçasse o colapso. Quando o fazia, a intervenção estatal tornava-se inevitável.

      Durante todo este período, o Brasil exportou volumes recorde de commodities agrícolas enquanto a fome e a insegurança alimentar pioravam internamente. Os agricultores familiares produziam grande parte dos alimentos que os brasileiros realmente consumiam, mas recebiam uma fração do crédito público e da proteção política concedidos ao agronegócio exportador. O café enquadrava-se exatamente nesta contradição: lucrativo para a balança comercial, precário para quem o cultiva (IPES-Food).

      O regresso de Lula ao cargo em 2023 marcou uma ruptura decisiva com essa trajetória.

      A sua terceira presidência colocou a erradicação da fome, a proteção social e a reparação ambiental no centro da política económica. Políticas que já tinham provado ser eficazes nos anos 2000 foram reinstauradas, incluindo a compra pública de alimentos a pequenos agricultores, a expansão das transferências sociais e a restauração dos órgãos nacionais de governação alimentar desmantelados sob Bolsonaro (IPES-Food). Em poucos dias após tomar posse, Lula também reinstaurou as proteções ambientais e reafirmou o compromisso do Brasil com o desmatamento zero até 2030, revertendo a abordagem permissiva da administração anterior (BCIU).

      Isto não foi política simbólica. Foi uma mudança material nos interesses que o Estado prioriza.

      A nível internacional, Lula afastou o Brasil do alinhamento pró-EUA de Bolsonaro e dirigiu-o para uma política externa mais independente e multipolar. Reengajou-se com a integração regional e a cooperação Sul-Sul, sinalizando que o Brasil não subordinará mais as prioridades internas ao alinhamento ideológico com Washington (Geopolitical Economy). Bolsonaro, enfrentando responsabilidade legal por corrupção e pela sua gestão da Covid-19, deixou o Brasil rumo à Florida antes da transferência de poder.

      Essa ruptura não ficou sem contestação.

      Em 2025, os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros numa medida amplamente interpretada como retaliação política em vez de necessidade económica, estreitamente ligada ao apoio de Trump a Bolsonaro e à hostilidade ao governo de Lula (Al Jazeera; LSE). O café foi diretamente exposto. O Brasil exporta a maioria do que produz, e os EUA são o seu maior comprador. Os agricultores familiares, já a lidar com a seca provocada pelo clima e a queda dos preços do arábica, foram os que mais perderam (Al Jazeera).

      Essas tarifas já foram removidas. Mas o episódio continua revelador.

      Mostrou quão rapidamente o café pode ser envolvido em pressões geopolíticas quando um país produtor segue políticas que desafiam interesses entrincheirados. E mostrou, mais uma vez, onde tendem a recair os custos dessa pressão. Não sobre as elites políticas ou grandes exportadores, mas sobre os agricultores e comunidades rurais menos capazes de absorver choques súbitos (LSE).

      O setor do café no Brasil está agora a emergir de um período de extração deliberada e abandono político e a entrar numa fase contestada de reparação.

      A abordagem de Lula não promete uma transformação fácil ou imediata. Mas reancora o café dentro de um sistema alimentar mais amplo, que trata a terra, o trabalho e o clima não como externalidades, mas como responsabilidades políticas. Reconhece que a resiliência não pode ser construída com desregulamentação e que a segurança alimentar não pode ser sustentada apenas pelas exportações.

      O café continuará a fluir do Brasil. A questão é se o fará através de um sistema desenhado para concentrar valor e poder, ou de um que comece, ainda que imperfeitamente, a redistribuir ambos.